Na prática

Jornalista e estudante de Educação, 28 anos. Que um dia resolveu criar um blog porque estava escrevendo uma reportagem sobre crianças blogueiras. E resolveu continuar postando besteiras variadas. Sem nenhum compromisso com periodicidade.

Domingo, Outubro 26, 2008

Sobre cheiros e defeitos

Depois de já ter morado com tantas pessoas diferentes na minha casa, descobri que o cheiro dessas pessoas também habita (ou habitava, já que quase todas foram embora) o apartamento. Só de passar por um armário que não é o meu, eu consigo sentir o cheiro da pessoa. E é engraçado como a gente perde a razão na hora de avaliar se ele é bom ou não. Se a gente gosta muito de alguém, o cheiro dessa pessoa se torna automaticamente bom.

Tenho uma amiga que diz que começou a se interessar pelo namorado por causa do perfume que ele usava. É a eterna discussão de quem nasceu antes, o ovo ou a galinha. Ela gosta dele por causa do seu cheiro ou gosta do cheiro porque é dele? Eu aposto na segunda opção.

Mas o que mais me intriga nesses devaneios é que sou incapaz de saber qual é o meu próprio cheiro. Acho que somos todos incapazes. Nem mesmo quando abro meu próprio armário tenho a real percepção. Talvez por isso eu relacione, com certa freqüência, os cheiros aos defeitos. A maioria das pessoas, acredito, não tem a real dimensão dos seus próprios defeitos. Mas tem a dimensão exata dos defeitos daqueles que estão próximos.

Às vezes eu consigo me dar conta dos meus defeitos. É como um daqueles momentos em que pego uma roupa minha, cheiro e consigo sentir alguma coisa. É raro e passa rápido. Quem sabe eu não seria uma pessoa melhor se me concentrasse mais em sentir o meu próprio cheiro? Depois de muito treino, eu poderia partir com sucesso para a lista dos meus defeitos.

Terça-feira, Outubro 02, 2007

Abstinência de Felicity

Eu ia escrever um texto sobre cheiros, já tinha até meio que preparado. Mas vai ficar para a próxima. Estava em Los Angeles, andando meio sem rumo, e por acaso entrei naquela loja imensa de CDs, DVDs e milhares de outras coisas, a Virgin. Eu estava no meu último dia de viagem, não querendo voltar para o hotel. E, claro, parei para olhar os DVDs de séries.

Foi aí que o texto de cheiros ficou para segundo plano. Encontrei, de primeira olhada na estante, uma série que adorava, mas que nunca acompanhava direito porque não conseguia memorizar os dias em que ia ao ar. Felicity. Por burrice só comprei a primeira temporada, que, óbvio, assisti toda em menos de uma semana. Agora sofro de uma crise de abstinência incrível.

Felicity é uma menina que muda drasticamente o rumo da sua vida por causa de um cara. Ou melhor, por causa de um texto que esse cara escreve para ela. Ela está se formando na escola e tinha tudo certo e preparado para ir para universidade de Stanford. No dia da formatura, num raro lapso de coragem, ela pede para o tal menino por quem é apaixonada, mas com quem nunca trocou mais do que duas palavras, escrever em seu yearbook (aquela tradição que só os americanos têm e conservam). E é o que ele escreve que faz ela se matricular não em Stanford, que fica do lado de casa, na Califórnia, mas sim numa universidade em Nova York, do outro lado do país. Porque era para lá que ele estava indo.

A série é cheia de pequenas mensagens, que podem até parecer uma espécie de auto-ajuda, mas são bem melhores do que isso, acreditem. Talvez seja por esse motivo que eu esteja evitando colocar algumas das frases que ouvi nos episódios aqui. Elas podem passar uma impressão errada, se forem retiradas do contexto. Mas uma coisa é certa: eu amo Felicity não só pelas pelas mensagens que surgem nos meios diálogos, mas, principalmente, pelos silêncios.

Felicity é a primeira personagem de séries americanas que eu conheço que fica em silêncio. Que hesita. E são os momentos de silêncio dela que fazem com que eu me identifique ainda mais com tudo aquilo. Porque é aí que você percebe como, às vezes, podemos nos sentir incrivelmente sós, mesmo estando rodeados de um monte de pessoas. Porque eu tenho a impressão de que ela fica em silêncio porque ninguém seria capaz de compreender o que ela poderia querer dizer.

Preciso encontrar, urgentemente, alguém que entenda o que eu estou tentando dizer. Alguém que, de preferência, seja fã de Felicity. Para eu me livrar dessa sensação de solidão.

Sexta-feira, Agosto 17, 2007

Superpoderes

E se eu tivesse um superpoder? Na verdade, eu tenho um. Ok, dois. Eu consigo acordar na hora que preciso, mesmo sem despertador. Se for um compromisso realmente importante, que eu não quero perder de jeito nenhum, eu consigo acordar. E o segundo é que eu tenho um sexto sentido em relação às pessoas. Só de trocar uma ou duas palavras, ou, às vezes, só de olhar, eu consigo saber qual é a daquela pessoa. Se ela vai ser legal para mim, se ela está me enganando de algum jeito...

Um deles eu acho que é hereditário. Porque talvez tenha sido herdado pela minha sobrinha mais nova, a Caroca. Existe um encontro de família que ela, que acabou de fazer três anos, não consegue participar. Porque tem uma pessoa que ela não consegue nem olhar. Ela se agarra nos outros e tapa os olhos com as mãos, não quer nem saber. E eu acho que é porque ela tem esse mesmo tipo de sensação que eu tenho. A tal pessoa, que está sempre presente nesse encontro de família específico, não vai ser boa para ela.

Nos últimos tempos, por causa da vida corrida, eu vinha desejando adquirir mais um superpoder: o do teletransporte. Ia facilitar um bocado a minha rotina. Ando pesquisando como se faz para conseguir. Ainda não descobri.

Mas descobri que, assim como qualquer super-herói, eu também tenho minhas superfraquezas. A mais importante delas: quando estou contando algum fato muito importante para mim, algo que realmente marcou a minha vida, eu tremo. Não no sentido figurado. Eu tremo de verdade, como se estivesse com frio.

Não foram muitas as vezes em que passei por isso. Mas elas me marcaram de uma maneira tão intensa que agora, só de contar isso aqui, estou começando a sentir esse mesmo tipo de frio. Acho que vou colocar um casaco. Para não dar chance aos que não têm o superpoder do sexto sentido em relação às outras pessoas de sacarem qual é a minha ou o que é realmente importante para mim. Porque eu dou muita bandeira.

Segunda-feira, Julho 09, 2007

Eu queria voltar

Eu descobri uma rádio. O nome é Atlântida FM e só pega depois que eu saio do Rebouças, em direção ao trabalho. Na Zona Sul, não pega de jeito nenhum. E mesmo quando pega, já quase perto do Centro, pega mal. Eu tenho que passar o dial devagarinho porque pelo automático o rádio não pára nela.

O grande lance é que essa rádio só toca sucessos dos anos 70 e 80. E todas as músicas que ela toca me fazem viajar para a minha infância. E ali, naquela situação mais adulta do mundo, a caminho do trabalho, eu tenho vontade de chorar. Não que o trabalho não seja bom, aliás, ele é ótimo. Mas a angústia de ter virado adulta não some jamais.

Talvez nem seja o fato de ter virado adulta propriamente. Talvez seja a clara noção de que tudo aquilo que eu vivi não volta mais. Nunca mais. Tenho horror a pessoas que acham que suas infâncias foram as melhores do mundo. E que repetem "as crianças de hoje não têm a sorte que eu tive" ou "ser criança no meu tempo é que era bom". Eu não acho nada disso.

Eu só acho que daria até um braço para voltar a ter a sensação de ter 9 anos e estar me preparando para a noitada da colônia de férias. Ou de já ter uns 15 e estar encontrando os amigos, em um primeiro dia de machané central.

Eu nem sou muito fã dele, mas umas frases do Rubem Alves se encaixariam aqui: "Os adultos querem andar para a frente. Progredir. Os poetas sabem que a alma não deseja ir para frente. A alma é movida pela saudade. A saudade não deseja ir para a frente. Ela deseja voltar".

Tudo bem, eu não sou poeta. Mas eu também sei que a minha alma queria voltar.

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Quarta-feira, Junho 14, 2006

Inveja

Eu tenho ótimas idéias à noite. E li uma ótima explicação na Superinteressante uma vez sobre isso. À noite, supostamente, sofremos uma baixa de uma certa substância no cérebro, que seria responsável pelos nossos julgamentos. Ou seja, a gente acha que está tendo ótimas idéias, mas na manhã seguinte conseguimos perceber que a maioria dos nossos devaneios da noite anterior eram enormes bobagens. Porque o cérebro, depois de horas de sono, se encarrega de repor a tal substância.

Tudo bem, minhas idéias então não são ótimas. Além de perceber isso quando acordo, não consigo ter boas idéias à luz do dia. E passo a ter inveja de quem tem. E mais ainda de quem consegue colocar essas idéias em prática. Tenho odiado pessoas bem sucedidas.

A inveja, aliás, é um sentimento muito estranho. Principalmente se ela aparece nos momentos em que você está pensando nos rumos bem sucedidos da vida de uma pessoa de que gosta muito. Metade do seu rosto sorri. Já a outra metade franze a testa, como se pensasse “que droga, eu queria ser essa pessoa”.

Mas ninguém admite, de fato, sentir inveja. Na entrevista de emprego, na entrevista publicada na revista, em qualquer situação da vida, quando a pergunta é “qual o seu maior defeito?”, a insossa resposta é “sou perfeccionista”. Ou, no máximo, “sou muito exigente comigo mesmo”. Uma única vez me perguntaram isso em uma entrevista de emprego. A vontade era de responder “tenho inveja de vez em quando”. Mas o que saiu foi “eu durmo além da conta, sinto muito sono”, e depois dei uma risadinha, como se estivesse brincando.

Não estava brincando, não. O que eu queria dizer era que invisto muito no meu sono para ver se meu cérebro consegue repor, além da tal substância do julgamento, algum hormônio do bom senso. Para eu não sentir mais inveja de ninguém. Mas o dito cujo não tem tido muito sucesso nesse departamento. Maldito cérebro.

Sexta-feira, Maio 05, 2006

Miss Simpatia

É ele, o trabalho. Aquele que me faz ficar um tempão sem escrever por aqui. E que por isso mesmo vem a ser o assunto deste post. Vamos lá. Existem duas pessoas que devem voltar para casa, depois de um dia de trabalho, com uma tremenda dor de cabeça. Daniela Cicarelli e aquele menino do Shoptime, o Ciro Bottini.

Já repararam na quantidade de vozes e caras diferentes que eles fazem a cada aparição na televisão? Eu já. E me dei conta de que todas as vezes que tive que fazer isso na vida, terminei o dia com uma dor de cabeça monstro. Daquelas que te impossibilitam até de ficar em um ambiente iluminado.

É engraçado porque essa tentativa de ser simpático a todo custo é muito evidente no trabalho dos apresentadores de televisão, mas seres humanos comuns que trabalham em uma empresa cheia de empregados passam por isso o tempo todo.

O melhor exemplo é a pausa para o café, coisa que tenho feito várias vezes ao dia. Sempre que cruzo com as pessoas do trabalho nesse trajeto computador-café, tenho que inventar uma graça. Vale tudo: uma piscadinha, um sorriso, um aceno, um “olááá”... O grande problema é que, em uma redação de jornal, você acaba cruzando com as mesmas pessoas várias vezes ao dia. Chega uma hora em que, já não sabendo mais como ser simpática com o mesmo indivíduo 20 vezes, faço coisas ridículas como mostrar a língua. Sempre me arrependo depois.

Tudo bem, eu não chego ao extremo de ter dores de cabeça todos os dias. Só às terças-feiras, quando costumo passar mais tempo no jornal (é sério isso, tenho tido dores de cabeça todas as terças e não deve ser por acaso). Mas fica aqui um alerta: uma vez eu li em algum lugar que “fingir ser simpático deforma o rosto”. E eu tenho me achado muito estranha no espelho nos últimos tempos.

Sexta-feira, Março 31, 2006

Domínio público

Ando muito sem tempo, como já deve ter dado para perceber, e minhas únicas referências para posts têm vindo da faculdade. Mas essa é boa, eu garanto. Pode continuar a ler. E tem muito a ver com algumas coisas que vivi nos últimos dias.

Estava lendo um texto sobre um filme do Resnais chamado “On connait la chanson”, algo como “Conhecemos a canção”. O autor explicava que o filme, uma comédia musical, trata principalmente das relações entre os personagens. Mas de repente, e isso acontece em vários momentos, esses mesmos personagens passam a refletir sobre eles próprios, suas vidas afetivas, suas relações com os outros e por aí vai. Nesses momentos de intimidade, em que estão sozinhos, os personagens não desenvolvem seus pensamentos falando, mas sim cantando – e as músicas só entram no filme nessas horas.

Acontece que todas as canções escolhidas para esses momentos de intimidade são grandes sucessos na França e, por isso mesmo, muito conhecidas do público francês. Um espectador mais sensível, para o autor do texto, entraria em crise. Porque de cara perceberia que o que esses personagens achavam ser sua intimidade mais íntima era, no fundo, de domínio público.

Pensando sobre isso, esse autor diz que nossas emoções, sentimentos e segredos são moldados e modulados pelo outro. E todo mundo sabe que não poderia ser diferente, nós só vivemos em bando. O que me incomoda mesmo é essa mania que a gente tem de se comportar da maneira que os outros esperam que a gente se comporte. Tento fugir disso às vezes, mas “o que as pessoas vão pensar de mim” está no topo das paradas de sucesso da minha consciência.

É estranho porque eu imaginava que as pessoas que já estivessem mais próximas do fim da vida, ou que pelo menos já contassem mais anos de vida do que eu, tivessem uma visão crítica desse assunto. Mas cada vez mais elas me provam o contrário. Eu queria mesmo é que um velhinho chegasse perto e dissesse que isso tudo é uma grande besteira. Que no fim da vida a gente percebe que o que valia mesmo era não ter se preocupado tanto com o pensamento alheio e ter feito mais o que desse na telha. Mas esse velhinho ainda não deu as caras.